Uma coisa que aprendi depois de me tornar pai foi compreender o sentido da oração.
Explicarei porque.
Minha mãe dizia que o amor de pai era tão significativo que ela não sabia definir racionalmente o que sentia pelos filhos.
Ouvir essas palavras tinha para mim um efeito meramente ilustrativo, e as vezes reconfortante, mas, tornando-me pai eu compreendi que ela não falava isso para que se ouvisse, ela falava isso porque o sentimento não cabia no seu coração.
Ela precisava externar.
Amar um filho é um milagre de tamanha proporção que até mesmo Deus, o pai do céu, experimentou essa dádiva.
O interessante que a primeira coisa estabelecida entre os pais e os filhos é a comunicação, feita muito mais por gestos, olhares e sentimentos, do que por uma manifestação formal da linguagem.
Tenho certeza de quem me lê agora ao lembrar de seus pais, ou de seus filhos, recorda primeiramente de suas características emocionais, físicas, do que propriamente de sua "expressão liquistica".
Isso é óbvio, porque somos seres relacionais, e não meramente cognitivos, racionais, ou seja, a relação é que constroi o conceito das coisas, e das pessoas também.
Minha filha quando nasceu me invadiu de sentimentos, ao ponto que eu não conseguia expressar o que estava pensando e sentindo.
Sua presença em minha vida tem valido muito mais do que muitos livros, do que muitas palestras, pois, observá-la me preenche de uma forma verdadeira, como se a aprendizagem fosse verdadeiramente apreendida pelo coração.
E esse tipo de conversa, com o tempo só tende a se aprofundar; o risco é que se torne muito complexa, cheio de entre-linhas, de suposições, de conveniências, e o meu medo é que deixe de ser natural e se transforme em fala de “sala de estar.”
As vezes me questiono se não é esse o tratamento que tenho tido hoje com meus pais.
Minha filha ao contrário, em sua idade de inocência, pula pra dentro de mim, quando quer sorrir sorri, quando quer chorar chora, quando quer afeto pede, e não tem medo de expressar, e de dizer seriamente: “que precisa que eu preste atenção!”
Eu um bobo apaixonado me mobilizo todo, só pra escutar meia dúzia de palavras desconexas, mas, que ela sem saber fazem todo o sentido em meu coração, para mim o que basta é estar ao seu lado.
E o que isso tem haver com o nosso dialogo com Deus? Assim, como pai e filho na terra, o nosso pai do céu nos ama profundamente, nos ama na “eternidade” ou seja, antes mesmo de nos conhecer, nos ama.
Seu diálogo é simples e verdadeiro, sua presença é real, e foi isso que aprendi depois que me tornei pai.
A nossa história de salvação baseia-se unicamente na história do amor de pai.Veja como as coisas de Deus são simples, e têm sentido.
Deus reconhece o seus filhos, não como números, não só pelo nome, mas pelo coração.
Quando geralmente vou pegar minha filha na escola, e mesmo com todos os barulhos presente no ambiente, como por mágica consigo identificar sua voz, e se preciso falar-lhe ela quase que por sintonia escuta minha fala.
Assim também é com nosso pai do céu, quando o filho fala o pai escuta, e quando o pai fala o filho escuta, este é o milagre do amor geracional.
Certa vez levei-a ao hospital, precisando fazer um exame que lhe imobilizasse, e ela, criança pequena que é, não se conformava em ficar imóvel, e não havia médico, enfermeiro que a colocasse na posição certa para a cópia do raio-x, mas, bastou que eu lhe desse à mão, e dissesse-lhe que queria que ficasse imóvel que ela obedeceu. É certo que não parou de chorar, mas nosso dialogo continuou com entre olhares de confiança.
Assim também é com o nosso pai do céu, que não nos quer imobilizados, não nos quer parados em nossas vidas, em nossos sentimentos, em nossos objetivos, ele inclusive nos fez livres.
Mas para dialogar com Deus precisamos mobilizar o nosso coração, mobilizar é diferente de imobilizar, é conduzir o coração, é movimentar o coração para Deus.
É sensibilizar o nosso ser para Deus, é dialogar com o pai entre olhares de confiança, mesmo que não tenhamos como deixar de sentir o sofrimento.
A oração é uma mobilização do coração, é a conversa simples que Jesus nos ensinou, que identifica o pai do céu, e o chama de meu.
As vezes achamos que Deus não tem identidade e é algo como um fantasma , perdido entre a noção de matéria e de espírito, mas o nosso pai do céu tem identidade, ao ponto que o próprio Jesus em todas as oração no evangelho o identificava, o designava , o revestia de personalidade, e de propriedade.
Deus é nosso pai, e não qualquer pai, ele é o pai dos nossos pai, é o pais dos nossos filhos, e tem conosco o amor geracional, o amor que só compreende quem tem um filho, um neto, pois, quando se ama de forma espontânea se compreende que qualquer palavra basta para se atingir o coração de Deus.
Orar é mobilizar quem somos para Deus, é um dialogo que vai e volta, é compreender não só pelo intelecto como pelo sentimento.